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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Auschwitz – 60 anos de Silêncio


Ultimamente tenho me interessado muito por assuntos ligados ao judaísmo, e tenho bons motivos para isso. Não... não sou um re-judaizante, tenho horror a esse movimento. Mas creio firmemente, e a cada dia isso fica mais evidente, que só entenderemos o cristianismo quando entendermos o judaísmo. Há uma revelação progressiva, e não pode haver entendimento pleno do Novo sem o conhecimento do Velho.

Por exemplo, nosso entendimento de Cristo como Messias só pode ser completo se entendermos toda a espera do povo judeu pelo “Meshiah”. Cristo, como o Cordeiro de Deus só é entendido se compreendermos a riqueza e a necessidade do derramamento de sangue de um cordeiro sem máculas como sacrifício pelo pecado do povo. Os títulos dados a Cristo como “Filho de Davi”, “Messias”, “Pai da Eternidade”, Príncipe da Paz”, “Leão de Judá”, “Raiz de Davi” só serão entendidos em sua plenitude a partir de um conhecimento razoável da expectativa judaica do “libertador”, do “ungido” que viria para resgatar Israel e todo o povo hebreu.

Por que essa introdução ? Porque penso que a igreja, que durante anos tem sido anti-semita, ou anti-judaica tem que entender a importância desse povo na nossa própria história. O “cristianismo anti-semita” é uma aberração. Os 60 anos do fim de Auschwitz me levaram a refletir sobre isso... com raras exceções, a igreja cristã foi favorável ao nazismo de Hitler e ao extermínio, só em Auschwitz, de mais de 1,5 milhões de judeus (o total de judeus mortos sob o III Reich passou dos 6 milhões).

Entendo essa reação dos “cristãos “ quanto aos judeus sob dois prismas. O primeiro remonta ao início do cristianismo e a luta entre dois grandes centros de “poder” cristão: Jerusalém e Roma, o resultado é claro com o surgimento da Igreja Católica Apostólica ROMANA, o que em si só é uma contradição. A igreja não surgiu em Roma, mas em Jerusalém... e a cidade que desce dos céus em Apocalipse não é a “Nova Roma”, mas a Nova Jerusalém. A luta pelo “monopólio do poder” do cristianismo eu creio ser um dos principais motivos do ódio “cristão” alimentado por Roma durante séculos.

Outro ponto de vista é o da “nova revelação”, maior que a primeira. Só que o entendimento da nova revelação só é possível pela compreensão do antigo pacto, pacto esse, queiramos ou não, feito com o povo judeu. É ao povo judeu que a promessa do messias é feita. É aos judeus que a Lei (que depois é cumprida em Cristo) é revelada. Todas as noções que temos referentes ao caráter de Deus, a idéia de um Deus único, criador de tudo a partir do nada , sustentador do universo, eterno.. tudo isso temos pela compreensão que o legado do judaísmo nos traz.

Portanto, o cristianismo não pode ser anti-judaico, mas pós-judaico, como num processo, uma revelação que progride e tem em Cristo o entendimento de toda a Lei, de todo o cerimonial, de todas as festas... tudo isso converge em Cristo, é Ele a dispensação da graça, o cumprimento de tudo e a chave para a interpretação de todo o Antigo Pacto, a Revelação encarnada de um Deus que se manifesta poderosamente na história do povo Judeu.

Voltando a Auschwitz, me dói ver a passividade da igreja em relação a tudo isso. Quando leio a biografia de Dietrich Bonhoeffer, emociono-me ao ver um homem que morreu, como cristão, tendo sido preso pela Gestapo e padecido nos campos de concentração de Buchenwalde e em Floessemburg, onde passou suas últimas horas antes de ser assassinado em 9 de abril de 1945. Bonhoeffer foi preso após ter seu nome envolvido no fracassado atentado de 20 de julho de 1944, que procurava acabar com Hittler.

Bonhoeffer, teólogo alemão, e uma de minhas maiores influências hoje, dizia não poder ficar calado diante de uma atrocidade tão grande. Não poderia ficar parado diante da “shoah” de milhões de judeus sob o domínio de um tirano que contava com o apoio da igreja oficial. Até hoje há um silêncio quanto à conivência da igreja cristã quanto ao extermínio cruel do povo judaico. Pouco se escreveu e pouco se falou sobre esse silêncio. (Aliás, o silêncio parece ser marca registrada da igreja evangélica diante de calamidades políticas, em troca de favores. No Brasil, à época da ditadura, silenciamos em troca de “liberdade religiosa” e de concessões de rádios.)

Confesso que quando vejo alguns filmes sobre o holocausto e as atrocidades cometidas contra os judeus (“A Lista de Schindler”, “O Pianista”, “A Vida é Bela”, etc...) as lágrimas sempre insistem em rolar... não há como ver tanto sofrimento sem que aquilo me incomode, sem que haja um “padecer junto” com aquele povo.

O massacre de judeus nos campos de concentração parece até hoje nos chamar à responsabilidade profética de não nos calarmos diante da tirania de governos e reis. E também a revermos nossos conceitos sobre o papel do povo judeu na construção do cristianismo. Esse nosso anti-judaísmo talvez seja um dos empecilhos para que os judeus vejam Cristo como o messias prometido desde os tempos de Abraão, nosso Pai na fé e na esperança daquele que viria, através do qual todas as nações seriam benditas.

“Qual é, pois, a vantagem do judeu ? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, sob todos os aspectos. Principalmente porque aos judeus foram confiados os oráculos de Deus. E daí ? Se alguns não creram, a incredulidade deles virá desfazer a fidelidade de Deus ? De maneira nenhuma...” Que Deus abençoe ao povo judeu, nesse dia em que relembram as atrocidades de um dos principais campos de concentração nazista.

Minha oração sincera é de que Deus abençoe a esse povo, que Ele em sua soberania escolheu nos tempos eternos para que ali fossem revelados seus oráculos, abrindo-lhes os olhos para a revelação do messias em Cristo. E quanto a nós, que Deus nos encha de amor e de coragem para não nos calarmos mais diante de tantas barbaridades feitas com a conivência daqueles que hoje se dizem “o novo Israel de Deus”.

Shalom Adonai Shalom

NEle, que nasceu judeu e morreu para a salvação de todos os povos,










Por: José Barbosa Junior
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