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domingo, 2 de janeiro de 2011

Um caminho para si


Há algum tempo tínhamos mais certezas. Dizem que este fenômeno é fruto da ignorância, pois só os que não sabem têm a ousadia de afirmar verdades definitivas. O mundo é das certezas voláteis, embora na vida pessoal tenhamos as elevado ao status de máxima convicção. Cada qual faz a sua; junta retalhos e faz uma grande colcha e nela se estriba. Como todos fazem igual, logo, todos têm a pretensão de estarem certos.

A atitude politicamente correta é fruto desta asneira. A pretensa unidade que aceita tudo em nome de um suposto respeito ao direito supremo daquele que ostenta sua verdade que, por incrível que pareça, não desdiz a do outro. Não é estranho?

Quando se trata do homem é assim, desde tempos imemoriais. É duro caminhar às cegas, por isso construímos dogmas, regras, leis. Dão a sensação de segurança, no limite, de controle. Com isso, controlamos as circunstâncias e aos outros que por nossas verdades se deixam guiar. Talvez nos tornemos tiranos, talvez mestres que oferecem a sugestão de um caminho.

Li “Tirando os sapatos” do rabino Nilton Bonder. Fui instigado a pensar sobre estas certezas nossas de estimação. O livro relata sua viagem, juntamente com outros religiosos e acadêmicos de vários países, o caminho de Abraão. A jornada fez o autor repensar sua própria história como judeu e como crente.

A certa altura ele fala do Lech Lechá que é a transliteração do hebraico do chamado de Abraão para sair de sua terra e ir para outra que Deus lhe mostraria. Lech Lechá significa “Vá para si mesmo”; “Vá para ti”. O texto de Gênesis (12.1) que nos é familiar fica assim: “Vá para si, anda da tua terra e da terra da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.”

Para mim foi uma descoberta esta pequena frase: vá para si mesmo. Soa estranho, mas quanto significado! É isso que todos fazemos com nossas crenças, tornamo-nos ensimesmados, centrados em nosso umbigo e tudo que seja diferente, por medo, por insegurança, detratamos, rechaçamos para nos proteger do diferente, do que não entendemos. Nisto se inclui os mistérios de Deus em seus caminhos insondáveis para nós. Se não acontece tal coisa de determinado modo que nossa crença acredita, não pode ser válido, nem de Deus.

A caminhada de Abraão é sair de seu conforto, da proteção, de seus hábitos e crenças cristalizadas para ser ele mesmo, desabrochar o homem que Deus já conhecia, mas que o próprio Abraão desconhecia. Ir a si mesmo é construir uma história. Peregrinar num caminho sem mapa é aprender a depender e a conhecer quem o chama. Ir em direção à terra prometida significa abandonar certezas, deixar para trás trilhas conhecidas e lançar-se numa relação com Deus em que Ele será o provedor e sustentador. É viver ao Deus dará. Aqui sem a conotação negativa dessa expressão.

Pelas certezas, muitas milimetricamente sustentadas por fieiras de referências bíblicas, forjamos um deus e seu comportamento. No fim, ele é um pálido reflexo de nós mesmos ou daquilo que nem ousamos ser em sociedade e nele projetamos, especialmente nossa tendência ao autoritarismo. Por isso, é preciso peregrinar, abandonar-se, sair de si mesmo, ou daquele que está acostumado a um deus domesticado, a orações repetitivas, a rituais mecânicos.

No caminho não há amparo à vista. Estamos sempre no limite do precipício daquilo que julgamos correto por nós mesmos. Os temores noturnos nos acompanharão até que os sons da noite se nos tornem familiares: “Não te assustarás do terror noturno, nem da seta que voa de dia.” (Sl 91.5) Mas é somente aí que o caminho se faz real. Ninguém nunca se conhece na bonança ou na mornidão de uma vida sem o fogo de Deus.

Se o leitor acompanhou até aqui, deve se perguntar, então, devo fazer um caminho literal como o fez nosso pai na fé? Práticas espirituais de retiro de silêncio, peregrinações (pelo amor de Deus não é turismo), podem ser úteis, mas nem todos podem fazê-los. Uma primeira resposta à pergunta é que este peregrinar tem a ver com nossa prática religiosa e de ser pessoa. O pior inimigo é a acomodação. Um programa previamente agendado (nada contra agenda) que você cumpre no piloto automático.

Analise sua oração. Você experimentou ouvi-la? O culto de que você participa. A mensagem que você ouve. O canto que você entoa. A leitura que você faz, quando faz, da Bíblia. Quanto de você está em cada ato destes? Ir para si é confrontar-se com seus limites. Com a mediocridade que a todos nós corrói. A auto-satisfação espiritual é perigosa, porque sem querer ou querendo, alguém se torna seu próprio gozo. Olha como eu faço isso! Olha como eu faço aquilo!

Ir para si mesmo é desapegar-se. Aqui temos sérios problemas. Sim, porque na peregrinação só dá para levar o essencial e falo de algo equivalente a uma caneca, sandália, uma muda de roupas, a escova dental, o resto faz parte da provisão do hospedeiro maior, Deus, que nos recebe nEle mesmo. Mas detestamos improvisação, mesmo aqueles de nós que são mais desorganizados. Caminhar sem uma segurança, está louco? Alguém exclamaria. Não senhor, é preciso um colchão forrado com umas economias, um pouco de saber, um emprego seguro, uma casa, carros... Vejam, falo destas coisas em seu sentido figurado.

Sair para si equivale a lavar os olhos de um olhar viciado, descalçar sapatos confortáveis para sentir o chão e suas irregularidades, quer dizer, ter contato com a realidade tal como é. Abraçar o insólito porque carros de fogo existem, anjos cheios de olhos existem, machados que flutuam na água, pessoas que levantam da morte... Ir para si é o mesmo que esvaziar a mente de tudo que sabemos para nada saber, exceto o Cristo crucificado e nEle o sim de Deus para tudo que nosso coração renascido desejar.

 
 
 
 
 
 
 
 
Por: Eudes Alencar
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