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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O valor da amizade cristã


A Grande Comissão, registrada em Mt 28.18-20, clarifica a missão da Igreja nos termos de fazer discípulos maduros e reprodutivos (que "guardem" todas as coisas ensinadas por Jesus). O primeiro desdobramento desse chamado é a evangelização acompanhada de ensino. Um grupo de cristãos não faz discípulos se permanecer isolado entre quatro paredes, deixando de testemunhar continuamente do amor de Cristo. E aqueles que forem sendo salvos pela pregação da Palavra precisam ser nutridos e assegurados dos construtos básicos de crenças alicerçadas nas Escrituras, de modo a poderem amadurecer e tornar-se seguros da doutrina (Ef 4.14).

Outro aspecto fundamental é criar (e manter com eficiência) estruturas de aperfeiçoamento e serviço. Os santos de Deus foram chamados para o ministério e precisam desde cedo aprender sobre os dons espirituais e a doutrina da vocação. As sociedades internas e outros ministérios devem configurar-se como instâncias de estímulo à produtividade espiritual, de modo que cada um de seus participantes sinta-se parte de um processo vital de desenvolvimento do reino de Cristo na terra. Igrejas com serviços bem estruturados propiciam espaços atrativos para suas comunidades, estimulando ainda mais a evangelização e o discipulado.

Observem-se ainda as doutrinas bíblicas da perseverança dos santos, da mistura do "joio com o trigo" e da consciência individual do cristão. Os verdadeiramente convertidos permanecem firmes na fé até o fim; nem todos os chamados "crentes" chegam a firmar-se em uma igreja e alguém pode iniciar a carreira cristã em um grupo presbiteriano e depois migrar para outra denominação. Não existe, em nenhum lugar da face da terra, controle absoluto sobre a membresia. O mesmo voluntarismo que traz o indivíduo para a profissão de sua crença o leva para outros lugares, produzindo um fluxo constante de entradas e saídas nas listas de membros das igrejas.

É nesse contexto de reflexão que reflito sobre o tema da amizade, entendendo que ela torna-se fator diferenciador, que agrega valor a um grupo de discípulos de Jesus. A amizade consolida tanto o discipulado quanto a membresia.

No discipulado, a amizade propicia a prática da mutualidade. Uma série de imperativos neotestamentários só pode ser praticada entre amigos:

Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo (Gl 6.2).

Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo (Ef 4.15).

... Pensem concordemente no SENHOR (Fp 4.2).

Não mintais uns aos outros... revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente... (Cl 3.9, 12-13).

Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados (Tg 5.16).

Tais injunções, para tornarem-se concretas, necessitam de relacionamentos de intimidade santa, nos quais seja possível abrirmos os corações e sermos aceitos, ajudados, exortados e admoestados. Depreende-se que quem não busca amizade cristã deixa de crescer na graça e no conhecimento do Senhor, uma vez que o projeto celestial envolve o aperfeiçoamento mediante os relacionamentos com outros membros do corpo de Cristo.

No que diz respeito à membresia, a amizade é o cimento que fixa o indivíduo em uma comunidade. Uma igreja pode ser ótima em pregação, ensino e ministérios, mas não conseguirá manter as pessoas se estas não forem amigas umas das outras. Uma pesquisa desenvolvida por uma instituição alemã confirmou que nas igrejas que mais crescem no mundo, um dos fatores de fortalecimento é o alto nível de comunhão existente. Uma grande comunidade norte-americana constatou, a partir de um questionário, que a maioria de seus membros havia entrado na igreja devido à pregação do pastor, mas permanecia firme porque tinha feito amigos. Casais novos ou maduros, jovens solteiros, adolescentes, todos buscam amizade sincera, fiel e permanente. Sem isso, não existe ambiente para a participação nos eventos eclesiásticos.

Daí a necessidade de as igrejas reverem suas agendas examinando suas ênfases ministeriais: "Estamos construindo uma comunidade de amor ou uma boutique de serviços? Nossas atividades propiciam a criação, manutenção e aprofundamento de relacionamentos? Nossos relacionamentos abrem portas para a prática da mutualidade bíblica?" Eis algumas perguntas que podem auxiliar na construção de modelos de ministério verdadeiramente voltados para a formação de discípulos e não apenas a busca de novos correligionários de atividades religiosas.

No âmbito pessoal, estamos diante de dois desafios: "de que maneira tenho entendido a importância da amizade e buscado fazer amigos? Estou acessível às pessoas ou priorizo uma existência individualista, como se vivesse em um casulo?" Respostas sinceras a tais questões podem iniciar um processo de arrependimento e renovação espiritual, aproximando-nos de outros seres humanos e fomentando crescimento maduro.

Penso que é preciso ir mais além, considerando alguns passos práticos para fazer e manter amigos. Mas isso já é assunto para outro artigo.





 
Por: Misael Nascimento
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