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domingo, 5 de setembro de 2010

Espaços e tempos para o amor


O horário eleitoral começou e os candidatos começam o debate apresentando educadamente, por enquanto, as suas propostas de governo.

Todos tratam da continuidade, como era de se esperar, desse governo que agradou a quase todos, concentrando-se nas nuances também esperadas: resolver a violência, aperfeiçoar a educação, implementar políticas compensatórias, melhorar a gestão da saúde, continuar o crescimento, coisas assim.

De tal modo que assistir ao guia eleitoral ou desligar a televisão parece ser a mesma coisa, como parece ser quase a mesma coisa escolher qualquer candidato ou candidata.

Os pedaços de vida que vamos recolhendo no nosso cotidiano não parecem ter nada a ver com tudo isso. Casal que caminha pela beira do mar iluminados pela lua, pessoas que compram roupas, reencontro com amigos, rodas de bar, pertencem a outro tempo e a outro espaço, não contemplados pelo espaço político oficializado.

Entretanto, um olhar mais acurado descobre nesse cotidiano a surpresa de elementos interligados ao jogo político, essa imbricação impossível de se desmanchar entre política e vida.

O casal para continuar seus passeios à beira-mar precisa de políticas ambientais urgentes e radicais que interrompam o ritmo de aquecimento do planeta e evitem que o mar engula as cidades circundantes e os seus amantes apaixonados.

O grupo que compra roupas são duas famílias de periferia, negros e negras, dependentes de bolsa família e de políticas públicas que garantam acessos e combatam discriminações. Só conseguem comprar porque roupas usadas, vendidas em um tipo de promoção capaz de atrair um dinheiro vindo de um salário difícil de ganhar e fácil de desaparecer.

Uma amiga re-encontrada se chama Valdenice. Jovem e bela prepara-se para defender sua tese de doutorado, o que é uma grande vitória, tendo vindo de família pobre e estudado com imenso esforço pessoal, apesar do sistema educacional que não favorece esses caminhos. Em uma crônica, presente no livro Vila Maravila, “Em homenagem a Dandara” prestei-lhe justa homenagem, sem mencionar o seu nome, há quase dez anos, quando terminava o bacharel na universidade.

Sempre envolvida com ONGs e comunidades alternativas, faz de sua vida e história instrumento e objetivo de lutas. Lutadora negra e bela como a companheira de lutas de Zumbi, Dandara, terá no seu doutorado e pesquisas mais uma arma de combate.

E em uma roda de bar, na cidade de Recife, re-encontro com um grupo de amigos e amigas, alguns homossexuais. Conversa descontraída, alegria pela alegria, entre os comes e bebes costumeiros. Roda de conversa, roda de sorrisos, roda de histórias de vida, espaço de fraternidade nem sempre tão fácil de ser encontrado.

Especialmente os homossexuais e as homossexuais precisarão de políticas públicas para terem direitos de participação nas rodas e lugares que desejem, em uma configuração social que pretende classificar a sexualidade a partir de hierarquias duvidosas e a rotular o amor a partir de critérios estranhos à própria dinâmica do amor.

Diante de tudo isso, o nosso cotidiano precisa estar atento ao jogo político e a comunidade política precisa ser lembrada sempre que sua principal função é encontrar e garantir espaços e tempos para o amor.



Por: Marcos Monteiro
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