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terça-feira, 24 de agosto de 2010

As tradições, o evangelho


Leia: Marcos 7.1-13

A fama de Jesus já havia percorrido toda a região da Galiléia, palco de seu ministério nesse momento. As pessoas o reconheciam por onde quer que ele andasse. Prova disso está em sua passagem por Genesaré (Mc 6.53-56). Mal descerá do barco com os discípulos e as pessoas já o reconheciam, o cercavam, tocavam nele, traziam os doentes e enfermos, pediam para que os deixasse tocar nele, mesmo que fosse apenas a franja de sua veste, para que ficassem curados.

Por conseguinte, a vinda dos fariseus e escribas a seu encontro, num momento posterior, como relata o texto acima indicado, não me parece gratuita ou desproposital. Eles já sabiam muito bem quem era Jesus e o que ele representava. De cara, Marcos aponta certa predisposição desses em identificar possíveis falhas que pudessem desabonar a reputação de Jesus e de seu bando. Marcos descreve algumas características que permeavam a vida desses mestres da Lei e determinavam seus “absolutos” (v. 3-5). A religiosidade desses homens era marcada pelo rito, pela cerimônia e pela obediência às tradições dos antigos. Essas tradições eram transmitidas de geração em geração. Eram absolutos, “verdades” dogmáticas defendidas a pulso de aço.

Todavia, embora esses “absolutos” fossem tomados como leis divinas, poucos correspondiam, de fato, ao que a Lei preceituava, e muitos, aliás, anulavam a própria palavra de Deus. Esses homens eram mestres da palavra, mas seus absolutos não eram os absolutos de Deus. Essa foi a denúncia de Jesus. De modo análogo, penso que isso ocorre com muitos de nossos “irmãos” hoje. Algumas idéias que percorrem o meio cristão com “cara” de verdade absoluta de Deus, são, na realidade, “absolutas perversões” em relação ao que a Palavra diz. São verdades-mentira; só servem como manutenção de uma ordem que há muito tempo deixou de ser divina (se é que um dia o foi), não passando de convenções, “signos de rebanho” (como diria Nietzsche), com a finalidade de controle das pessoas e subsistência das instituições e seus “cargos”, que mais parecem “encargos”.

Longe estão de ser absolutos de Deus, mas artimanhas, tanto daqueles que pensam poder receber mais fazendo muito mais para Deus (enquanto só fazem para si e satisfazem apenas a si mesmos), quanto daqueles (os líderes do rebanho) os quais, por torpe ganância, abusam do poder conferido por seu posto e fazem perecer mental e espiritualmente os pequeninos a quem o Senhor quis dar o reino, enquanto eles triunfam em suas abomináveis formas de espiritualidade e santidade.

Esses sim, perdoem-me a expressão, devem apodrecer no inferno! Esse será seu destino, caso não se arrependam de seus maus caminhos e passem a viver íntegra, honesta e livremente em Jesus Cristo, sendo sinceros consigo mesmos, com as outras pessoas e com Deus, sobre qualquer matéria, e em especial, as da fé. Costumamos dizer: “Deus tenha misericórdia dessas pessoas” (mais?), como se Ele agisse pautado por “pena”. Não!

A misericórdia (o não recebimento do castigo que merecíamos) não existe sem a justiça (a retidão que nos cabe). Não servimos a um Deus indulgente à moda humana, que sente “dó” da gente, mas, sim, a um Deus justo, que faz justiça, e o faz pautado no amor e na graça (o favor que não merecemos), derramando sua misericórdia a quem quer enquanto aplica a justiça. Não suportaríamos caso sobre nós pesasse apenas a justiça, pois longe estamos de ser “justos” por nossos próprios esforços.

Não vejo Jesus sendo um pouco sequer indulgente com essa corja. Pelo contrário, ele põe o dedo na ferida e aponta tremendas contradições existentes neles. Enquanto se apegam às suas tradições como carrapatos num cão, negam e subvertem o sentido da própria lei, que afirmam defender. “É bem isto, rejeitais o mandamento de Deus para guardar a vossa tradição... anulais a palavra de Deus com a tradição que vós transmitis” (v. 9, 13).

Isso me lembra Paulo quando escreve aos Gálatas, perplexo com a facilidade com que aqueles haviam se desviado da verdade do Evangelho, de sua vocação para a liberdade, para se render à escravidão da Lei, da justificação por esforço próprio. Ele diz: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na Lei; da graça decaístes” (Gl 5.4). E, contra os judaizantes, os líderes que faziam aqueles cristãos tropeçarem, ele dispara: “Tomara até que se mutilassem os que vos incitam à rebeldia” (Gl 5.12).

Tanto como em Jesus, não vejo em Paulo a menor comiseração ao se referir a esses líderes-abusadores do rebanho. Jesus compara essa corja aquela a qual Isaías se referia dizendo: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim; é em vão que me prestam culto, pois as doutrinas que ensinam não passam de preceitos de homens” (v. 6-7).

Não é muito complicado, para quem tem o mínimo de sensatez e intimidade com a Palavra, identificar rupturas e diferenciar uma tradição (mesmo as mais mascaradas de piedade) e o Evangelho puro e simples. Lembro de uma palavra que Carlos Queirós disse certa vez numa palestra, quando falava do Evangelho e da igreja. Ele afirmou que o que Jesus chamava de “igreja” não era esse negócio que a cristandade foi criando. E disse mais: que o “evangelho” não pode ser comercializado. O evangelho caricaturizado e distorcido pode até ser. Mas o evangelho de Jesus de Nazaré não. E indagou: ora, quem quer comprar o direito de dar a outra face? Quem comercializaria o direito de perdoar que te ofende ou de amar quem é seu inimigo? Se encontrarem alguém, me avisem...

Nesse texto, Jesus oferece algumas pistas de como fazer isso.

Tradições são preceitos de homens, enquanto o evangelho significa boas novas de Deus para o mundo.

A tradição se apega mais a rituais, doutrinas bem elaboradas e fechadas, e a uma moralidade exterior (como a de não lavar as mãos antes de comer), enquanto o evangelho quebra convenções religiosas, paradigmas, tradições e gera vida, concerne à vida, ao ser humano integral.

A tradição exige que a pessoa mantenha uma exterioridade limpa, polida, com aparência “santa”; o que corresponde, numa linguagem pastoril, a um rebanho sempre bem “tosadinho” e em linha. Pura fachada. Só que por dentro, humm... O bolor pode comer solto, soltinho. Em contrapartida, o evangelho não se prende a essas amenidades do exterior, à artificialidade da fé: cosmética, auto-indulgente, fisiologista. O que está e vem de dentro é mais importante pra Deus.

As dinâmicas do evangelho nos levam a perguntar: de que vale um exterior limpo, se lá dentro, lá no fundo, há muita sujeira escondida? Jesus diria: “Limpa, limpa primeiro, fariseu, esse teu interior, porque a limpeza de fora é conseqüência. Tira a trave do teu olho antes de acusar o cisco no olho do teu irmão”. E quantas traves não passam despercebidas, quantos camelos não são engolidos com muito sal e pimenta – o orgulho, a hipocrisia, a falsidade, a opressão, a injustiça, a mentira, o egoísmo... Esses não são pecados? Mas na aparência... Ah, quanta beleza! Falsa beleza, sórdida e feia “beleza”, “beleza americana” (lembram do filme?).

E qual deve ser a resposta de cristãos autênticos a esse modo de vivência que nos cega e emudece em relação à manifestação de Deus? Quanto a mim, gente, eu prefiro me juntar ao Brennan Manning e dizer: Eu sou um maltrapilho do Pai! A resposta mais honesta e humanizadora para mim é: “Eu quero ser pobre de espírito”. Chega! Basta de viver a ilusão de que existe algo nessa vida que me preenche e completa mais que a graça. Cansei de lastimar por meus fracassos mais óbvios, de me autoflagelar por causa de minhas limitadas habilidades e sofrer com o golpe diário da reprovação. Deus já me aprovou para sempre quando, em Cristo, disse: “Está consumado!”.

Não consigo e nem preciso me adequar aos caminhos infrutíferos para o reino dessa visão legalista de pureza que por aí se tem pregado. Não! Não é preciso ser menos humano para ser puro na presença de Deus, nem é necessário negar aquilo que de natural e bom ele criou para ser santo. Quero, sim, aprender o que é o amor incondicional do Pai, a adentrar no mundo das pessoas, mesmo quando não me identifico muito bem com esse mundo, às vezes tão diferente do meu. O universo dos “pequeninos” de Deus: as criancinhas, os pobres e oprimidos, as prostitutas e os cobradores de impostos. Nada do que é humano me pode ser estranho. Quero, por fim, corroborar com as seguintes palavras de Manning:

“Quanto mais crescemos no Espírito de Jesus Cristo, mais pobres nos tornamos – e mais percebemos que tudo nesta vida é um presente. A tonalidade fundamental da nossa vida passa a ser ação de graças humilde e jubilosa. A consciência da nossa pobreza e de nossa inépcia leva-nos a regozijar-nos na dádiva de termos sido chamados das trevas para a maravilhosa luz e transportados ao Reino do amado Filho de Deus. O homem ou a mulher pobres escrevem ao Senhor nove cartas que dizem: ‘Bom é’. Numa conversa, o discípulo que é verdadeiramente pobre no espírito sempre deixa a outra pessoa com a sensação de que a vida do discípulo foi enriquecida por ter conversado com ela. Não se trata de falsa modéstia nem de humildade fingida. A vida dele ou dela foi de fato agraciada e enriquecida. Ele não é apenas escapamento, sem abertura para a entrada de fora. Ele não se impõe aos outros. A pobreza espiritual dela a capacita a adentrar o mundo do outro mesmo quando não é capaz de identificar-se com esse mundo – por exemplo o mundo das drogas, o universo gay. Os pobres de espírito são as menos condenatórias das pessoas; convivem bem com pecadores. O homem ou a mulher pobres do evangelho reconciliaram-se com sua existência falha. Estão conscientes de sua falta de inteireza, sua incompletude, o simples fato de não apresentam de forma alguma os requisitos necessários. Embora não apresentem desculpa para o seu pecado, estão humildemente conscientes de que o pecado é precisamente o que os levou a se atirarem à mercê do Pai. Eles não fingem ser mais do que são: pecadores salvos pela graça”. (Brennan Manning. O Evangelho Maltrapilho. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 81-82).


Por: Jonathan Menezes
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